Como Inteligência Artificial e Governança de Dados estão modernizando a administração tributária brasileira.
A macroeconomia do País tem exigido uma nova atuação das Secretarias de Economia, o que requer entender o contexto econômico, tributário, local, regional, nacional e internacional, de forma a prover soluções para o crescimento econômico equilibrado e constante do ente federativo. Nesse contexto, temos uma oportunidade sem precedentes, proveniente de investimentos vultosos do PROFISCO III – BID, para transformar os processos e gerar resultados tangíveis para toda a sociedade.
Este artigo propõe uma reflexão sobre como o uso adequado e integrado da Inteligência Artificial (IA) pode revolucionar o modus operandi e o perfil dos auditores e gestores fiscais. Por meio da adoção de metodologias, modelos e ambientes para avançar na maturidade da governança de dados, conforme proposto pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), é possivel transformar a administração pública.
Com isso, o objetivo central é aumentar a produtividade e a qualidade do trabalho, além de aprimorar processos internos. Assim, garante-se uma política tributária adequada que promova o crescimento econômico sustentável e a justiça fiscal.
O Novo Paradigma da Gestão Fiscal
A arrecadação e a fiscalização de tributos, bem como a gestão do gasto público, são pilares da eficiência de governos e não podem mais ser operadas sob lógicas analógicas, sistemas não integrados, processos morosos e informações puramente reativas. O crescimento econômico dos entes federativos dependem diretamente da capacidade do Estado de ser ágil, previsível e indutor do desenvolvimento sustentável.
O atual paradigma consiste na revolução institucional e organizacional das Secretarias de Economia, cuja meta é evoluir de um modelo tradicional, caracterizado por sistemas e processos verticais de arrecadação e fiscalização, com viés corretivo e punitivo, para um ecossistema de conformidade cooperativa e inteligência preditiva para potencializar a justiça fiscal, aumentando o rol de bons pagadores com uma política tributária adequada ao novo contexto econômico do País.
Hoje, essa transição é impulsionada pela aplicação de tecnologias inovadoras e habilitadoras para uma maior qualidade e produtividade do trabalho. Esse ecossistema deve ser sustentado por uma sólida estrutura de governança de dados, com aplicação de processos “vivos” de arrecadação, fiscalização, cobrança, gestão de cadastro, atendimento e relacionamento com o contribuinte e julgamento do contencioso fiscal.
Governança de Dados: A Fronteira do Modelo de Maturidade de Dados do BID
O grande desafio é definir e implantar uma metodologia que qualifique, organize e mantenha o acervo de dados da instituição. Para que qualquer tecnologia disruptiva funcione, é essencial que a base de dado seja confiável. A metodologia de maturidade em governança de dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) é uma referência importante e oferece a régua ideal para essa evolução e transformação para o novo estágio. Nesse modelo as instituições são avaliadas em cinco níveis de maturidade de dados:
Nível 1 (Inicial): Dados fragmentados
Informações distribuídas em silos e processos pouco estruturados.
Nível 2 (Repetível): Governança inicial
Padronizações começam a surgir em áreas específicas da organização.
Nível 3 (Definido): Governança institucional
Padrões institucionais estabelecidos, com políticas de dados integradas à Secretaria.
Nível 4 (Gerenciado): Gestão orientada por indicadores
Uso de métricas de qualidade de dados e processos monitorados quantitativamente.
Nível 5 (Otimizado): Organização orientada por inteligência
Foco na melhoria contínua, onde os dados orientam a inovação e políticas públicas em tempo real.
Para revolucionar sua atuação e avançar para os Níveis 4 e 5, os órgãos fazendários devem investir em projetos que viabilizem a geração de maior produtividade e qualidade no trabalho de especialistas e gestores que atuam em processos críticos. Isso se faz, por exemplo, implantando modelos de governança que transformem o ativo de dados fiscais (como Notas Fiscais Eletrônicas, escriturações e cadastros) em insumos e combustíveis essenciais para gerar algoritmos e modelos de cenários preditivos, garantindo maior assertividade na tomada de decisão e inteligência fiscal.
Inteligência Artificial e a Potencialização da Qualidade e Produtividade
A Inteligência Artificial (IA) pode atuar como o principal meio indutor e catalisador da produtividade e da qualidade do trabalho no Fisco, a partir da implantação de uma nova plataforma evolutiva laboral.
Plataforma para otimização de dados e inteligência fiscal
- Qualidade de dados – Dataquality: definição, qualificação organização e gestão do acervo do conjunto de dados para o uso nos diversos níveis de aplicação.
- Auditoria Preditiva: Algoritmos de Machine Learning cruzam dados setoriais para identificar anomalias e riscos de sonegação antes mesmo da abertura de um procedimento fiscal formal.
- Automatização de Rotinas: Processamento de defesas administrativas, restituições e consultas tributárias por meio de IA generativa e processamento de linguagem natural (PLN), reduzindo o tempo de resposta ao contribuinte de meses para minutos.
- Combate à Fraude Estruturada: Identificação automática de empresas de fachada e planejamento tributário abusivo por meio de análise de redes de relacionamento complexas.
- Telemetria Fiscal: Ambiente integrado de informações e indicadores fiscais e comparação com cenários de vários setores econômicos.
O Perfil do Auditor Fiscal: De compilador para Cientista de Dados
A revolução digital traz um enorme desafio para o quadro de especialistas de órgãos tributários, Com o uso de ferramentas e de novas plataformas de automação para tarefas mecânicas de conferência, o papel do Auditor Fiscal é ressignificado. O perfil focado estritamente na aplicação literal e fria da lei evolui para o Auditor Fiscal Estrategista. Esse esforço exige gestão de mudanças, além de investimento contínuo em capacitação permanente e incentivos financeiros para a categoria.
Competências do Auditor do Futuro
- Análise Avançada de Dados: Capacidade de interpretar modelos estatísticos, algoritmos preditivos e painéis de Business Intelligence.
- Visão de Negócios e Setorial: Compreensão profunda das dinâmicas de mercado das verticais econômicas reguladas, agindo como um consultor de conformidade.
- Raciocínio Jurídico Complexo: Dedicação exclusiva a casos de alta complexidade jurídica e fraudes sofisticadas, onde a sensibilidade humana e o julgamento crítico superam a máquina.
Justiça Fiscal e Política Tributária para o Crescimento
Uma Secretaria de Economia moderna entende que arrecadar bem não significa arrecadar excessivamente, mas sim de forma justa e eficiente. A tecnologia permite desenhar políticas tributárias que impulsionam permanentemente a economia:
- Redução do Custo de Conformidade: Simplificação extrema das obrigações acessórias. O Fisco calcula o imposto devido e oferece a guia pronta (tributação pré-preenchida), liberando as empresas para focarem em seu core business.
- Equidade Competitiva (Justiça Fiscal): Ao combater firmemente a sonegação por meio da IA, o Estado protege o bom contribuinte. Isso evita a concorrência desleal perpetrada por empresas que operam à margem da lei.
- Estímulo ao Crescimento Local: Utilização dos dados fiscais agregados para sinalizar aos governantes quais setores econômicos demandam incentivos, onde há gargalos logísticos e como otimizar os investimentos públicos em infraestrutura para atrair novas empresas.
Conclusão
A revolução de uma Secretaria de Economia não é um projeto de TI, mas uma mudança cultural e estratégica de Estado. O PROFISCO III do BID é uma excelente oportunidade para transformar definitivamente o contexto e a qualificação dos órgãos fazendários., Isso se viabiliza por meios de projetos bem desenhados e apoio externo especializado, voltados principalmente à definição de metodologias de governança de dados e à aquisição de soluções de Inteligência Artificial, juntamente com gestão de governança de Dados, que certamente elevará drasticamente a qualidade e produtividade do Fisco.
Como resultado direto, o país, os estados e os municípios ganham um ambiente de gestão e governança mais seguro, com uma arrecadação e uma fiscalização adequadas que trazem retorno direto à sociedade, beneficiada pela verdadeira justiça fiscal. O futuro do desenvolvimento econômico passa, obrigatoriamente, pela inteligência de suas receitas para prover os gastos necessários.
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